Por Angélica Lovatto[1]

“Portanto, não se iluda comigo, leitor. Além de antropólogo, sou homem de fé e de partido. Faço política e faço ciência movido por razões éticas e por um fundo patriotismo. Não procure, aqui, análises isentas. Este é um livro que quer ser participante, que aspira a influir sobre as pessoas, que aspira a ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo”. 

Darcy Ribeiro, O povo brasileiro.

Quem é Darcy Ribeiro? Em primeiro lugar um brasileiro extraordinário que ainda segue menos reconhecido no Brasil do que deveria. Mas absolutamente reconhecido e divulgado em todos os países da América Latina por seus livros, estudos e projetos.

Esse foi o destino de muitos pensadores brasileiros desterrados a partir do golpe militar de 1964, que baniu, prendeu, torturou, matou ou exilou, por muitos anos, as melhores cabeças deste país. A injustiça historiográfica que se perpetrou contra esses autores trouxe um desconhecimento injustificável no Brasil de suas vidas e obras.

Darcy Ribeiro (1922-1997), como autor, não pode ser definido em um único escaninho do conhecimento. Ele foi um produtor incansável de livros e estudos. Mas não apenas um “estudioso”. A teoria e a prática estiveram intensamente atadas neste autor tão rico em abordagens. Ele foi um semeador de universidades, criando o projeto inicial de várias delas em países da América Latina, inclusive no Brasil, a UnB – Universidade Nacional de Brasília, um dos motivos de seu exílio. Pela variedade de seus estudos, integrados sempre numa totalidade teórica e histórica, Darcy pode ser considerado um antropólogo – “especialidade” na qual ele talvez seja mais conhecido – mas é também um historiador, um sociólogo, um cientista político, um educador, para dizer o mínimo. Ou seja, melhor não tentar classificá-lo nestes termos, pois limitaria a compreensão da abundância de suas qualidades.

Claro que também foi um homem da política. E um homem de partido. Foi ministro do governo João Goulart, assessorou governos de esquerda latino-americanos como Salvador Allende, no Chile, fomentou universidades no Peru e Venezuela, foi vice-governador do Rio de Janeiro no governo Leonel Brizola, foi Senador da República. Aliás, semeou não só universidades, mas especialmente o grande projeto de colocar crianças brasileiras na escola o dia inteiro, conhecidos como CIEPs – Centros Integrados de Educação Pública, na experiência do governo do estado do Rio de Janeiro. E até o final de sua vida sempre questionava publicamente por que a educação no Estado de São Paulo, considerado o estado mais desenvolvido da nação e do continente, tinha índices educacionais que ficavam abaixo até mesmo do nosso vizinho Paraguai.

Darcy Ribeiro defendeu durante sua vida inteira uma integração dos povos latino-americanos, na ideia tão pouco conhecida no Brasil, da formação de uma Pátria Grande. No livro lançado em 1986, América Latina: a Pátria Grande, retrata o subdesenvolvimento latino-americano, oriundo de nosso passado colonial, mas não só. Aparecem ali as consequências dos golpes militares, patrocinados especialmente pelo imperialismo estadunidense, que tentava interceptar por completo qualquer possibilidade de soberania de nosso continente. Logo no primeiro bloco do livro aparece o tema: “A América Latina existe?”, ensaio onde ele explica a uniformidade sem unidade do continente e seus antagonismos essenciais.

A expressão Pátria Grande remete ao sonho bolivariano – que vem da importante figura histórica de Simon Bolívar, o Libertador – da formação de uma pátria integrada por todos os povos que lutavam contra o jugo colonialista que imperava em nosso continente. Esse desconhecimento no Brasil sobre o tema da Pátria Grande e do papel de Simon Bolívar foi fruto – especialmente no pós golpe de 1964 – de uma postura de colocar o Brasil de costas para a América Latina, condição sine qua non para o isolamento das forças progressistas e revolucionárias que aqui se acumulavam e que, na união com os povos hermanos, poderia ter trazido no contexto da chamada Guerra Fria, uma ruptura inevitável com os regimes imperialistas dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, à época. Darcy Ribeiro, em seu retorno do exílio, resgata este tema, elucidando também – e apresentando da melhor forma possível – o autor brasileiro Manuel Bomfim (1868-1932), que ele “descobriu” que existia como grande pensador das coisas do Brasil, no exílio, numa biblioteca no Uruguai! Ou seja, outro grande nome desconhecido ou pouco valorizado em sua própria terra. Nesse sentido, o principal livro de Manuel Bomfim, pelo qual encantou-se foi América Latina: males de origem, publicado originalmente em março de 1903.

Gilberto Felisberto Vasconcellos,[3] grande conhecedor da vida e obra de Darcy Ribeiro, defende que o autor é um pensador brasileiro que pode ser considerado o ponto de ligação da América Latina, pois escreveu sobre todos os países latino-americanos.[4] Seu exílio e o interesse germinal em entender a formação do povo brasileiro, a partir de sua experiência com os indígenas, o teria levado a isso: “De 1964 a 1972 [Darcy] viveu o exílio intelectual mais fecundo na história das ciências sociais, teve no entanto péssima recepção no meio acadêmico por ter rompido com a cabeça colonizada do intelectual brasileiro”[5] Essa diferença de Darcy Ribeiro, em relação aos pensadores que não rompiam com essa condição de submissão intelectual ao que vinha acriticamente de fora do país, é seu bem e seu mal. Valoroso pela atitude corajosa, foi autor perseguido, sobre quem o Brasil silenciou. Em seu livro, Darcy Ribeiro: a razão iracunda, Vasconcellos conta que, aos 27 anos, editorialista na Folha de São Paulo, ouviu de Claudio Abramo: “Você nunca vai entender o Brasil se não conversar com Darcy”. Mais ou menos na mesma época o grande cineasta brasileiro Glauber Rocha – outro herege valoroso praticamente desconhecido das gerações atuais – deu o mesmo aviso a Vasconcellos: “Você precisa procurar o Darcy para entender o que é a colonização”.[6]

A originalidade de Darcy Ribeiro está na totalidade de sua produção teórica que, após sua formação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, foi inicialmente impulsionada pelo trabalho de etnólogo, que o levou a viver em meio aos índios por longos dez anos. Essa experiência o marcou profundamente. Ele queria um retrato do Brasil de corpo inteiro. Percebeu que a questão não era apenas entender os índios, mas entender a formação do povo brasileiro como um todo. E a pergunta que o moveu intelectual e politicamente, especialmente após a derrota sofrida com o golpe militar, foi: Por que mais uma vez a classe dominante vencia? Por que o Brasil não tinha dado certo?[7] Aliás, sem passarmos despercebidos pela impressionante atualidade desta pergunta, cumpre destacar que foi no exílio no Peru que ele se colocou a escrever o livro ao qual se dedicaria ao longo de 30 anos e que resultou, antes de sua publicação definitiva em 1995, a um conjunto de mais de 2 mil páginas escritas, publicadas em cinco impressionantes livros do autor, a saber: 1968: o processo civilizatório – etapas da evolução socioculturalAs Américas e a civilização1971: o dilema da América Latina – estruturas de poder e forças insurgentes1972: os brasileiros – teoria do Brasil e Os índios e a civilização. A partir deste último livro, ele edita uma Suma etnológica brasileira, na coleção Antropologia da Civilização. Tudo isso porque o autor não ficou satisfeito com a primeira versão de 400 páginas (iniciado no Peru em 1964) do livro, já citado, que depois veio a ser conhecido como O povo brasileiro, de 1995.

É possível imaginar o cuidado investigativo e as minúcias de desenvolvimento etnográfico e histórico do autor para poder chegar à originalidade de sua tese? Na primeira versão, em 1964, ele sentiu que faltava uma teoria de base empírica das classes sociais, no mundo brasileiro e latino-americano. E que faltava também uma tipologia das formas de exercício do poder e de militância política, fosse conservadora, reordenadora ou insurgente. E, finalmente, que faltava ainda uma teoria da cultura, capaz de dar conta da realidade brasileira e latino-americana, mobilizando consciências para movimentos profundos de reordenação social. E tudo isso, ao mesmo tempo em que se dedicava ardentemente à pesquisa, semeando universidades e fazendo projetos de intervenção prático-política em variados países do continente. Haja fôlego e energia! E, durante décadas, esse precioso brasileiro ficou renegado ao esquecimento da historiografia brasileira? Renegado nos currículos dos cursos da universidade brasileira? Francamente, resgatá-lo e colocá-lo na ordem do dia, é missão número um de qualquer pessoa que se preocupe de fato com os destinos da vida nacional.

A tese originalíssima decorrente desse esforço é, em resumo apertado, a seguinte: os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente. E por isso são uma etnia nova: o povo brasileiro. Uma entidade nacional distinta de quantas haja, que fala uma mesma língua, só diferenciada por sotaques regionais. Mais que uma simples etnia, o Brasil seria uma etnia nacional, um povo-nação, assentado num território próprio, enquadrado dentro de um mesmo Estado, unitário, para nele viver seu destino. E mudá-lo, se conseguir. No entanto, o autor alerta que isso não deve cegar-nos para disparidades, contradições, antagonismos que subsistam. Defende que, para o povo brasileiro, não houve outra alternativa do que fundir-se numa única etnia, forçada pela aniquilação quase que completa de cada etnia anteriormente originada (seja índia, negra transplantada, branca transplantada). Para sobreviver, essas etnias se misturaram irremediavelmente. Sob pena de extermínio completo! Teria ocorrido justamente o contrário no restante da América espanhola, que resultou – em sua grande maioria – numa sociedade multiétnica, dilacerada também, mas pela oposição de componentes diferenciados e imiscíveis. Mas ele adverte: então teriam sumido os signos da múltipla ancestralidade do povo brasileiro? Não! Sobreviveram na fisionomia somática e no espírito dos brasileiros, mas não se diferenciaram em antagônicas minorias raciais, culturais ou regionais. No caso da escravidão, por exemplo, ela foi tão longa que não havia alternativa: não tinham como preservar-se isoladamente e se reproduzir. Nesse sentido, as únicas microetnias tribais que sobreviveram como ilhas, ficaram cercadas pela polução brasileira e já não podem afetar a macroetnia. Enfim, Darcy defende que o povo brasileiro é um povo novo, um novo modelo de estruturação societária, fundada miseravelmente num tipo renovado de escravismo e numa servidão continuada ao mercado mundial. O Brasil emergiu, portanto, como um “renovo mutante”, remarcado de características próprias, mas atado genesicamente à matriz portuguesa.

Sem condições de desdobrar toda a tese de Darcy Ribeiro aqui, e correndo o risco calculado de ser imprecisa nas mediações necessárias, resta indicar que esses diversos modos rústicos de ser dos brasileiros, construídos historicamente, com exploração continuada e sangue, permitem distingui-los hoje como sertanejos, caboclos, crioulos, caipiras, gaúchos, além é claro de ítalo-brasileiros, teuto-brasileiros e nipo-brasileiros. O povo brasileiro teria sido, enfim, resultado de diversos implantes coloniais, viabilizados pela integração forçada, através de lutas cruentas, levado a cabo pelas velhas classes dirigentes brasileiras num processo continuado, violento e deliberado de supressão de toda identidade étnica discrepante.

A obra deste autor ainda precisa ser apreendida, ensinada e repisada para as gerações contemporâneas. Daí a importância da iniciativa da Editora Lutas Anticapital em publicar esse livro de bolso que fará toda a diferença para o aprendizado sobre a realidade brasileira e latino-americana, que o generoso Darcy Ribeiro dedicou a vida para construir e divulgar.

Texto originalmente publicado em Duplo Expresso.

[1] Professora do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP (Marília). Coordenadora do Grupo de Pesquisa (CNPq) “Pensamento político brasileiro e latino-americano”. E-mail: angel.lovatto@gmail.com.

[2] RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 3ª.ed., São Paulo: Global, 2015. 367 p.

[3] Outro grande pensador brasileiro, que estuda e conhece o nosso folclore como ninguém e também é daqueles intelectuais que não pode ser simplesmente classificado em um único escaninho das ciências sociais. É jornalista, escritor, sociólogo e muito mais. É, ainda, professor Titular da Universidade Federal de Juiz de Fora.

[4] Cf. VASCONCELLOS, Gilberto Felisberto. Darcy Ribeiro: a razão iracunda. Florianópolis: Editora da UFSC, 2015.

[5] VASCONCELLOS, op.cit., p.16.

[6] VASCONCELLOS, op.cit., p.15.

[7] Cf. RIBEIRO, op.cit., 2015.